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Declaração à criatividade

Enquanto criar for mero resultado de desempenho da produtividade, criatividade é acessório dispensável das ideias. Em tempos de agilidade, esperar e viver o percurso natural das coisas torna a criatividade uma dádiva contemporânea.

dádiva

substantivo feminino

1.ato ou efeito de dar espontaneamente algo de valor, material ou não,

a alguém; presente, oferta, mimo, brinde.

2.figurado - aquilo que foi objeto dessa doação espontânea.

"no sertão, a chuva é uma d. do céu"

Em uma manhã conheci através de uma reportagem sobre os Cantos de Trabalho, tradições existentes nas áreas rurais brasileira onde em comunidade cantos são feitos para unir forças coletivas, lidar com angústias pessoais, viver o tempo da atividade, preservar memória ancestral, enquanto realizam trabalhos manuais que resistem as inovações tecnológicas de alta produção.

De fato, resistência. Resistência de valores, coletividade, significados culturais e potências sociais, que são perdidas quando o único objetivo que nos é esperado é produzir, agilizar, desempenhar. Além disso, impacta com a riqueza na tradição em um país com "questões de memória", como discursado pelo Wagner Moura na premiação do seu Globo de Ouro. O ato criativo na entoação dos Cantos me tirou um sorriso de apreciação, mas expôs para minha vida agitada e mente acelerada o vazio ao qual tenho deixado a minha preciosa e amiga de infância, Criatividade.

Em a "A sociedade do cansaço"de Byung-Chul Han, o autor denuncia a lógica neoliberal e os efeitos do discurso nos indivíduos, desenhando para nós a realidade em que vivemos submersos em uma hiperprodutividade pela ideia que só depende de nós a colheita de resultados. Nessa visão, até o descanso serve à produção, desempenho e a individualização ganha espaço para tentar, em um ciclo sem fim, alcançar algum lugar prometido a nós. O esgotamento, a solidão, o desinteresse, a automatização se tornam muito mais comum, daí a importância da criatividade. O criativo questiona e deseja reinventar as realidades.

criatividade

substantivo feminino

  1. inventividade, inteligência e talento, natos ou adquiridos, para criar, inventar, inovar, quer no campo artístico, quer no científico, esportivo etc.

  2. qualidade ou característica de quem ou do que é criativo.

Poderia resumir ela, como foi a ideia inicial do texto, à sua relação com os benefícios de criar. A importância dos trabalhos manuais e atividades que exercitam a qualidade do nosso funcionamento cognitivo, como atenção, raciocínio, envelhecimento saudável da nossa cognição, seus efeitos no nosso bem-estar, que obviamente não deixam de ser importantes para nossa qualidade de vida, principalmente em um momento de hiperconectividade e virtualização dos nossos dias. No entanto, nesse cenário conectado e do vislumbre da produção, vale ressaltar para além das falas sobre a utilidade do que se produz, a necessidade dos meios de contemplação, prazer e coletividade para brotar a criatividade. Às vezes nem se materializa algo, mas conecta criativos, colore pensamentos, desacelera a atenção aos mil estímulos do dia.

Mencionando uma criadora a qual aprecio muito o trabalho artístico, a Nath Araújo, em seu vídeo "arte ruim ainda é melhor que IA?" compartilha sua criação e menciona que a tendência do ano de 2026 é ser humano e relaciona com o cansaço do artista e a banalização da criatividade pelas inteligências artificiais. Me trouxe a reflexão do quanto é muito necessária a escuta dessa exaustão e levantar as lutas dos aspectos que nos saturam. Os criativos não são interessantes para alguns, o descanso não é bem visto quando é berço de uma mente aberta às inovações, criticidade, denúncias, laços sociais, artes!

tédio

substantivo masculino

1.sensação de enfado produzida por algo lento, prolixo ou temporalmente prolongado demais.

2.sensação de aborrecimento ou cansaço, causada por algo árido, obtuso ou estúpido.

Ainda pelo autor Byung-Chul Han, os desempenhos culturais da humanidade, como a filosofia, por exemplo, são frutos da atenção profunda, diferentemente da atenção dividida aos inúmeros estímulos ela permite a calma e o descanso natural e compatível a nossa capacidade de absorver e vivenciar as experiências. Sendo assim, ele dedica um capítulo apenas para a evidenciação da baixa tolerância ao tédio e a necessidade dela para o processo criativo. É interessante que a relação do tédio para criar e criar para viver o tédio, aqui eles não existem em função do outro, com a finalidade de algo, mas da boa companhia que um pode dar ao outro de maneira contemplativa, significativa e necessária.

Portanto, "são tempos difíceis para os sonhadores", como citado em um dos meus filmes favoritos O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, mas que possamos nos entediar, desacelerar, contemplar, socializar e assim nos manter criativos, sem a criatividade a realidade seria bem mais difícil, estaríamos presos em uma só visão.


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