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"Eu pinto tão mal que dá gosto" O que Clarice pode inspirar sobre tentar?

Assistindo um vídeo fui arrematada por essa fala da autora Clarice Lispector sobre sua relação com a pintura. A escritora de clássicos da literatura disse que escrever não lhe dava paz, o encontro com a pintura parece ter proporcionado a si uma libertação das exigências, das cobranças e permissividade de sentir sensações mesmo "pintando tão mal".

Sua fala colocou em perspectiva o tanto de coisas que "perdem o gosto", distanciam do prazer pelo fato de não ser boa. É recorrente se perceber paralisando diante começos ou em tentativas de permanecer vivenciar algo que "somos ruins". O que se perde de vista é que iniciar o novo requer se permitir ser ruim, como também fazer as pazes com a ideia de que talvez nosso melhor nunca seja o que imaginamos, nossas expectativas, o que comparamos ou dizem para nós. Difícil não é mesmo?

Todos nós temos crenças sobre nós mesmos que podem ser desafiadoras de serem sentidas nas experiências da vida, parte essa dolorida no processo terapêutico de ser encontrada tantas vezes. Além das nossas histórias pessoais que moldam conceitos que temos sobre nós, nosso meio reforça o que "devemos" ser e fazer. Não me aguento em não citar o livro A sociedade do cansaço, mas um trecho que sempre ressoa meus pensamentos é sobre a exigência social na produtividade, nele diz que "o excesso da elevação do desempenho leva ao falecimento da alma".

Nossos desejos de criação se tornam produto de máquina. Em nossa sociedade, fazer por fazer e apenas isso, é uma afronta ao sistema da produtividade, "A vida não é útil" nos lembra o título de Ailton Krenak!

Em uma das bases teóricas de uma das Terapias Cognitivas, a Terapia de Aceitação e Compromisso, é levantado frequentemente o questionamento "Por que isso é importante para mim?" e caminhar com essa pergunta nos orienta a conhecer e fortalecer valores apreciáveis por nós. Deixar de se envolver com algo importante evita nossos medos, protege de frustrações, alivia da angústia dos receios do nosso desempenho e nos distancia de algo que não queremos pensar sobre nós, mas por outro lado nos separa do encontro com uma vida significativa e a possibilidade de se conhecer de outros pontos de vista.

Fazer arte para Clarice lhe dava a oportunidade de encontrar a paz e desfrutar de diversos outros prazeres e impactos que se expressar artisticamente proporciona. Seu resultado pouco importa, aproximar-se do seu desejo e desse encontro com essa versão de si torna prazeroso o significado da obra. Me questiono: do que tenho me protegido? Esse gosto amargo de me encontrar nas esquivas do meu desejo é melhor do que sentir o gosto da surpresa de me ver o vivendo independente de como?


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